Entre o púlpito e o palanque*




Por *Itamargarethe Corrêa Lima* – Jornalista, radialista e advogada. Pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal. Pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.


No encontro de hoje, resolvi fazer uma reflexão crítica sobre a fusão entre política e religião como técnica de mobilização social e de conquista de poder. O ponto de partida está em um modelo que ganhou escala nos Estados Unidos e, ao longo do tempo, passou a influenciar linguagens, métodos e alianças em outros países, inclusive no Brasil, com consequências diretas para a qualidade do debate público e para a confiança social nas instituições religiosas.

Nos Estados Unidos, a aproximação entre fé e disputa eleitoral ganhou musculatura com a organização da direita religiosa no fim do século XX. Um marco histórico desse processo foi a Moral Majority, criada em 1979, que ajudou a transformar pautas morais em plataforma de mobilização e pressão sobre o sistema político.

O mecanismo central não foi a presença de religiosos na política, algo compatível com democracias plurais, mas a construção de uma gramática de pertencimento, na qual a identidade religiosa passa a operar, também, como cívica e eleitoral. Esse repertório não permaneceu restrito ao território norte-americano.

Pesquisas acadêmicas descrevem a disseminação de uma teologia política e de estratégias de mídia e mobilização para a América Latina e para o Brasil por meio de redes missionárias e de comunicação, desde as décadas de 1960 a 1980, com efeitos sobre a politização de grupos evangélicos no período de redemocratização.

Esse tipo de circulação favorece a importação de narrativas de guerra cultural, com forte apelo emocional e baixa tolerância ao dissenso. No Brasil, o fenômeno assumiu feições próprias.

O crescimento do peso político de igrejas e lideranças religiosas, somado à polarização e ao ambiente digital, tornou o uso público da fé um ativo político. Estudos e relatórios analíticos apontam como a relevância social e o poder político de igrejas evangélicas se tornaram particularmente visíveis, inclusive na relação com governos e agendas públicas.

Em paralelo, pesquisas recentes também analisam a instrumentalização da fé em disputas eleitorais brasileiras, descrevendo como símbolos, linguagem e autoridade religiosa passam a ser acionados como ferramenta de convencimento e alinhamento político. O ponto mais sensível aparece no paradoxo moral.

O discurso público costuma vir carregado de pureza,  certo e errado, bem e mal, como se a política fosse um tribunal espiritual. Ao mesmo tempo, multiplicam-se casos graves envolvendo lideranças que assumem publicamente esse papel de guardiões da moral e, em privado, revelam condutas incompatíveis com o que pregam.

Esse padrão de contradição não é monopólio de um campo ideológico específico. Ele pode ser explorado por diferentes forças políticas, à direita ou à esquerda, sempre que a moral se torna um instrumento para obter poder, blindar aliados e deslegitimar adversários.

A pergunta inevitável é: por que isso acontece com tanta frequência? Uma hipótese sociológica consistente é que o moralismo, quando vira performance pública, tende a funcionar como mecanismo de compensação e controle.

Quanto mais frágil é a coerência interna, mais intensa pode se tornar a necessidade de sinalização moral externa. Cria-se um personagem público que promete retidão total, mas que não consegue sustentar, na vida real, a imagem que vende.

O resultado é dissonância, culpa, ocultamento e, não raro, escândalos que emergem quando a estrutura de proteção falha.
A escritora brasileira Micheliny Verunschk sintetizou essa crítica ao afirmar que o uso político da fé afasta as pessoas do sentido mais profundo da religião, chamando atenção para o modo como autoridades instrumentalizam crenças em benefício de agendas e narrativas de poder.

Essa observação é decisiva porque desloca o debate do espetáculo para o núcleo do problema. O que se apresenta como defesa da religião pode, na prática, produzir o efeito inverso, digo, corroer a experiência religiosa, transformando-a em marca identitária de massa e em escudo retórico.

Há ainda um dano institucional adicional. Quando a política é vestida de missão religiosa, o adversário deixa de ser apenas oponente e passa a ser inimigo moral. Nesse ambiente, o contraditório vira ofensa, a crítica vira perseguição e a democracia perde o chão, porque democracia depende de pluralismo, tolerância e alternância.

O Estado laico, nesse quadro, não é hostilidade à religião. Ele é a garantia jurídica de que nenhuma fé será convertida em critério de cidadania e de que a política será orientada por interesse público, evidência, responsabilidade e resultados concretos.

Por isso, a análise precisa ser feita sem lado. O problema não é a fé, nem a presença de pessoas religiosas na política, nem a liberdade de expressão religiosa. O problema é a instrumentalização da religião como tecnologia de poder e a transformação da moral em arma seletiva, usada para acusar o outro e nunca para conter a si mesmo.

Quando a ética vira marketing e a espiritualidade vira palanque, perde-se a política, a religião e a sociedade, que fica com menos diálogo e mais manipulação.

Por hoje ficamos por aqui. Até breve!!

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